3.10.07

o acto de criar em primeiro acto

























o acto de criar é um acto solitário



o estar só não me incomoda nada. pelo contrário. após estar com os outros durante todo o dia quando cai a noite fecho a porta.

aí tenho encontro marcado com o criar. tem dias que é em letras. outros em cor. e ás vezes invento-me nas notas. aí conheço-me segura. sou dona e senhora de mim.



o acto de criar corresponde para mim de igual modo ao acto de me sentar à mesa para jantar ou o do acender o cigarro sempre após o café. preciso de me reinventar todos os dias.



quando fecho a porta transpiro de entusiasmo por me encontrar a sós. desligo qualquer sinal que me incomode. dou apenas algumas breves oportunidades a quem me mereça. a outros solitários que como eu cerram as vidraças quando se sentem ameaçados no seu acto de criação.



a solidão para mim é uma companhia. espectadora de mim invento as linhas que me dão forma. crio as formas que me dão prazer. ilustro as letras que me tocam. e acendo as luzes que me indicam o caminho.



às vezes perco-me. mas sabe tão bem perder-me. chego até a queimar os mapas.



o criar é respirar.
é libertar.
e é amar.



porque cada linha cada cor cada letra é sentimento.
e é-o sempre a sós.

28.9.07

o haver


Resta, acima de tudo
essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.
Resta esse antigo respeito pela noites se falar baixo
essa mão que tateia antes de ter
esse medo de ferir tocando
essa forte mão de homem
cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta essa imobilidade
essa economia de gestos
essa inércia cada vez maior diante do infinito
essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons
esse sentimento da matéria em repouso
essa angústia da simultaneidade do tempo
essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida
de uma só morte.

Resta esse coração queimando
como um círio numa catedral em ruínas
essa tristeza diante do quotidiano
ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
essa imensa piedade de si mesmo
essa imensa piedade de sua inútil poesia
de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
de pequenos absurdos
essa tola capacidade de rir à toa
esse ridículo desejo de ser útil
e essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade,essa vagueza de quem sabe que tudo já foi,
como será e virá a ser.

E ao mesmo tempo esse desejo de servir
essa contemporaneidade com o amanhã
dos que não tem ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar,
de transfigurar a realidade
dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
e essa visão ampla dos acontecimentos
e essa impressionante e desnecessária paciência
e essa memória anterior de mundos inexistentes
e esse heroísmo estático
e essa pequenina luz indecifrável
a que às vezes os poetas tomam por esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
na busca desesperada de alguma porta
quem sabe inexistente
e essa coragem indizível diante do grande medo
e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
de refletir-se em olhares sem curiosidade, sem história.

Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho,
essa vaidade de não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.

Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.


Resta esse diálogo quotidiano com a morte
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada,
ela virá me abrir a porta como uma velha amante
sem saber que é a minha mais nova namorada.


vinícius de moraes/ edu lobo

26.9.07

monólogo de orfeu



"agora que não estás deixa que rompa o meu peito em soluços!

te enrustiste em minha vida e cada hora que passa
é mais por que te amar
a hora derrama o seu óleo em mim...


e sabes de uma coisa?
cada vez que o sofrimento vem
essa saudade de estar perto se longe
ou estar mais perto se perto
que é que eu sei!


essa agonia de viver fraco o peito extravasado
essa incapacidade de me sentir mais eu orfeu


tudo isso que é bem capaz de confundir o espírito de um homem
nada disso tem importância quando tu chegas
com esse contentamento essa harmonia esse corpo!
e me dizes essas coisas que me dão essa força
essa coragem
esse orgulho de rei


meu verso meu silêncio minha música!

nunca fujas de mim
sem ti sou nada
sou coisa sem razão


orfeu menos eurídice...
coisa incompreensível!

a existência sem ti é como olhar um relógio
só com os ponteiros dos minutos


tu és a hora és o que dá sentido e direcção ao tempo
qual mãe qual pai qual nada!
a beleza da vida és tu amada


vai ao teu caminho que eu vou-te seguindo
no pensamento e aqui me deixo rente
quando voltares pela lua cheia
para os braços sem fim do teu amigo


vai à tua vida pássaro contente
vai à tua vida que estarei contigo!"
vinicius de moraes

25.9.07

adeus sem adeus

preciso aprender a lidar com a morte.
com quem parte e me deixa assim triste. e mais só ainda.
impressionante como ainda não consegui deitar uma lágrima só que que fosse. antigamente lançava-me em choro. hoje já aprendi a lidar com a dor.
mas eu sei que vou quebrar. tenho de quebrar. preciso de quebrar.
a sensação de perda é vazia. oca. e enche-me de luto.
faz-me lembrar um poço sem fundo. e eu procuro bem lá no fundo o que não quero perder. mas como encontrar uma perda sem fundo?
não admito perdê-lo. recuso-me a perder.
na sexta à noite recebi o telefonema. "tens de ir ver o pedro. já não fala. se queres vê-lo com vida tens sábado e domingo. o tempo encurta para ele."
mas eu não quero ver o pedro assim. quero ver o pedro como quando o conheci. tinha eu catorze anos e ele dezassete. o pedro era tão bonito que me sufocava. vi-o pela primeira vez no alentejo. na aldeia onde nos cruzávamos em tempo de férias. costumávamos dar longos passeios à noite pela estrada. naquelas noites quentes de agosto que parecem constar no calendário porque tem de se cumprir o amor. sentávamo-nos nuns bancos de pedra à beira da estrada e ficávamos a conversar. ainda guardo comigo o cheiro do perfume que ele usava. o arrepio que me dava sempre que a mão dele envolvia a minha cintura. e o sabor que tinha a boca do pedro. nunca mais encontrei um sabor assim.
na estrada houve uma vez um abraço que só me vai largar quando eu morrer também. o tempo parou com ele. não havia mais nada além de nós os dois. e era eterno. fizemos juras de amor para sempre. e eu cumpri. costumo ser fiel ao que prometo. transportei-o comigo durante estes anos todos. porque todos estes anos nunca deixei de o amar. por isso não me quis despedir. detesto despedidas. jurei a mim mesma nunca lhe dizer adeus.
e continuo a cumprir.

23.9.07


de pintar
de pinta de ponto
inteiro
finito
com azul me visto
de amarelo me dispo
de branco
nu
cru
conquisto sem visto
e despisto
com pinta
com cinza de sombra
em fumo esvoaço
abraço
desfaço
e de preto entrelaço
com ponto
de encontro
sem hora marcada
nem mesa reservada
com a ausência do nada
falhada
sem linha
nem formato
calculado
qual estilhaço púrpura
esquecido
escondido
atrofiado
trespasso-me
em passo descabido
sentido
e magoado
renasço
inteira na paleta
e finito.