14.2.11

resta_me saber que duas noites
foram minhas








o teu cheiro
que fecho ainda nas mãos
já sem tactos para nenhum outro corpo
a não ser o teu
porque enfim
me resta acima de tudo
a marca que ficou no meu





ainda














Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
— Perdoai! — eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.





o haver de edu lobo




resta_me saber que duas noites foram minhas
resta_me o ser assim sem dia
sem norte
sem sorte
sem morte
sem ti
resta_me acima de tudo esta lembrança
que abraço todos os dias
que em duas noites foste assim
só para mim
resta_me apesar de tudo
o teu cheiro
que fecho ainda nas mãos
já sem tactos para nenhum outro corpo
a não ser o teu
porque enfim me resta acima de tudo
a marca que ficou no meu







ainda

11 comentários:

Mel dupla personalidade disse...

Olá! Estava navegando na blogosfera e me deparei com teu blog, adorei!
Amo fazer novas amizades, conhecer pessoas, idéias, outras perspectivas.
Teu cantinho é belo e sensual.
Já estou te seguindo...
Se puder visita meus blogs.
Bjs doces como mel da

*´¨)
¸.•´¸.•*´¨) ¸.•*¨)
(¸.•´ (¸.•` *♥ Mel Dupla Personalidade ♥*♥*♥*♥*♥*♥*♥*♥*♥

mfc disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
mfc disse...

É a timidez que nos faz recolher e sentir em nós o que a dois deveria ser sentido...

Luis Eme disse...

tanto resto...

Anónimo disse...

A caminhar sobre as cinzas de um corpo
- Oldmirror

Dr. Terezo Malrijo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Moon_T disse...

por enquanto.
nem sempre,
mas ainda.

Vieira Calado disse...

E... afinal de contas,
sempre resta alguma coisa
de seja o que for...

Bjs

Luis Eme disse...

eu vim cá.

tu é que te "baldaste"...

maria josé quintela disse...

resta (afinal) tanto.






beijo.

oldmirror disse...

Há demasiado silêncio que nos impede de respirar.