11.12.09

estremeço de amor




















extremo amor


















tenho_te em muito boa conta ainda há bem pouco tempo porque não fez sequer ainda vinte e quatro horas que morreste e já teimas em continuar a apoquentar_me em vida assim despida nua e completa entregando_me a suores frios que do teu corpo teimam em me presentear molhando_me a boca de mentiras desse castanho a terra mar que me vai enterrando mais e cada vez mais e ainda mais mais fundo e bem fundo e muito mais fundo que o profundo do teu olhar me deixa levar aos fundos de muitos palmos de terra abaixo da erva que tenta em me ressuscitar de um inferno que me encontra agora ainda quente dos teus lábios e dos teus abraços a sufocarem_me as palavras . estremeço de amor.












fotos de alexis heuer

10.11.09

a princesa das pernas tortas


















Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como era bonita.Quando era bonita, as pessoas diziam-lhe:- Eu amo-te.E iam com ela para a cama e para a mesa.Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:- Não gosto de ti.E atiravam-lhe caroços de azeitona à cabeça.A mulher pediu a Deus:- Faz-me ou bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.Então Deus fê-la feia.A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais gostavam sempre dela, tanto quando era bonita com quando era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço, estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar.Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe.Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe, descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu.As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei apaixonou-se pela mulher.- Será uma sereia? - perguntaram em coro as criadas ao rei.- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito tortas, uma mais curta do que a outra. - respondeu o rei às criadas.E o rei convidou a mulher para jantar.Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à mulher quando as criadas se foram embora:- Eu amo-te.Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:- Eu amo-te.Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar.


a sereia das pernas tortas de adília lopes






























era uma vez cem vezes que disse: princesa...
mas por vezes não se acredita em nada do que tem a ver com contos de fadas. barafustou.
atirou_se ao ar e morreu afogada!





bicas? hoje não há bicas para ninguém.














fotos de helen breznik

19.9.09


é










pois é
































e é preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir é preciso suor é preciso ser livre é preciso ser fácil












é preciso o amor de repente de graça é preciso a relva de bichos ignotos e o lago é preciso digam que é preciso é preciso uma vista para ver sem perfume e outra menos vista para olhar em silêncio é preciso o logro a infância depressa o peso de um homem é demais aqui
















e é preciso gente para a debandada é preciso o raio a cabeça o trovão a rua a memória a panóplia das árvores é preciso a chuva para correres ainda é preciso ainda que caias de borco na cama no choro no rogo na treva é precisa a treva para ficar um verme roendo cidades de trapo sem pernas









mário cesariny discurso sobre a reabilitação do real quotidiano manual de prestidigitação





































aguça_se o sabor do cheiro. lava_se a língua da secura dos monólogos mantidos a par. a improvisação do texto chega a doer. há feridas na boca que nunca se curam.no acto da chegada jogo à defesa. sem vontade de lançar no tabuleiro a peça única mantem_se de pé. parada e quieta qual estátua de pedra fria. sem cheiro. dá dó de ver.faz lembrar um casulo amassado. calca_se a casca e atrofia_se a pele. machuca_se o odor. transforma_se o cheiro num fedor mastigável após a boca acender o último cigarro. e fica_se sem saber o que dizer. sem fazer. fica_se.nesta dificuldade de continuar em jogo não sei de quê atiça_se a vontade de reinventar novos sentidos. aguça_se então o sabor do cheiro.o perfume que ocupa cada poro daquela pele. a que ocupa o branco da cama com o lençol que se afasta com os pés e o travesseiro que se atira fora pelo ar.é neste tabuleiro que me arrasto vagarosamente desligando a luz da rua que me atravessa os estores mal fechados enquanto a corrente de ar se me atravessa por entre os braços. o único sinal de vida é a respiração quase inaudível que parte em dois a massa atabalhoada de corpos adormecidos pelo quarto.e a hora avançada da madrugada mantem_se fresca como a memória de tantas noites sem ser assim. com o precipitar aposto em não jogar. é um jogo sem sentido que todo o sentido faz.mais uma vez mas desta acompanhada o corpo continua_me frio e esgotado de cansaço. poderia teimar. quebrar o ar pesado com um bafo sufocado. despejar as frases há tanto encravadas. retocar os poros. respirar sem inalar. mastigar o perfume ainda não gasto. lavar a língua nos suores tão familiares.mas há feridas no cheiro que não se saram.










fotos de mike w.

9.9.09

para onde vou porque vou como vou e se vou ou não vou











sei o que quero como quero quando quero e para que quero.
não há interrogações possíveis exclamações supostamente prováveis nem tecicências duvidosas. há os pontos finais. ponto final. ando na fase do ponto final.
sei quem sou o que sou como sou para onde vou porque vou e como vou.
aprendi a dizer não.tardiamente mas aprendi. o sim era muito raro. jogava mais com o talvez. dou por mim a pensar nisto. no fundo há uma ponta de revolta por ser quem sou e não querer ser assim. mas eu sou assim. combato-me muito. mas nessa guerra que tenho comigo nenhuma de mim sai ganhadora. mantenho-me estável. quase equilibrada.
sempre me assustou a mudança. o talvez era razoável. o não extremamente seguro. e o sim não fazia parte do meu vocabulário.
mas apetece-me dizer o que me apetece dizer. hoje não sei. amanhã logo se verá. deixa ver como me sinto. depois logo se vê se me apetece. dia após dia pratico-me cada vez mais ao sabor dos apetites. dos meus claro. se calhar é por isso que me dizem que ás vezes consigo ser bem desagradável. como desagradável? se só digo o que me apetece.
sei que magoo os outros. é uma defesa minha. faço-o para não me magoar a mim. faço mal. porque assim fico magoada por magoá-los. mas que mágoa!
ando na fase do ponto final.
há ponto final.
ponto final.






09.09.07











mantenho_me estável quase desequilibrada.






















fotografias de fritz faber

5.9.09

o regresso às aulas













o clima geral é de um ar pesado que se respira. a ivone até já nem põe o capacete.para quem não sabe o capacete da ivone é um capacete romano feito de metade de uma bola de futebol e pintado de castanho que foi usado num teatro e depois ficou abandonado na sala de e.v.t. recuperei_o usando_o durante a reunião de departamento de educação artística quando da eleição do cargo para delegada de educação visual e tecnológica. fui eleita por maiora quase absoluta. ainda hoje não entendo no que é que os meus colegas todos estavam a pensar quando votaram numa professora de capacete romano na cabeça.o dia hoje começou mal. mas piorou ainda mais. no último bloco da tarde o sexto H. vinte alunos que ao final do dia querem tudo menos ouvir falar em avaliação. muito menos a auto. mas eu tinha programado ou melhor planificado essa avaliação para hoje. e temos de chamar as coisas pelos nomes. vá lá saber_se se também alguém aqui me vai avaliar.ficha nova? sotora o que é uma unidade de trabalho? após quinze minutos de esclarecimentos a dúvidas as dúvidas mantinham_se. nem voltei a tentar. porquê? básico. não ouviram nada do que eu disse. aquelas cabecinhas pensam em tudo menos no que se está a tentar explicar. para quem não sabe e.v.t lecciona_se em par pedagógico. isto é são dois professores na aula. complicado não é? formações diferentes personalidades diferentes e às vezes muito ou quase nada em comum. é como um casamento. só de escrever a palavra fico mal disposta. a mais difícil para mim é a fase de adaptação. longa e por vezes dolorosa. depois habituo_me. mas como estava a dizer o estarem dois professores na mesma sala justamente implicaria tarefas comuns e divisão de trabalho.mas não.no meu caso não se passa assim. na hora de almoço apeteceu_me pegar na pasta e ala que se faz tarde vou_me embora para casa. resisti. aguentei. avisei a turma que tinha de haver silêncio para se conseguir trabalhar. ao qual minimamente cumpriram tirando o caso do nino que continua no fundo da sala à conversa com o humberto e que até de vez em quando trocam mensagens no telemóvel ou o daniel que não pára de comentar a desgraça que foi a derrota do benfica ou da diana que teima em manter a sua pochete a preto e branco em cima da mesa de trabalho comentando com a carina o que a sotora hoje traz vestido ou o pedro morgado que teima em continuar a fazer pontaria aos colegas com a sua invencível esferográfica bic transparente e a ana pires que de cinco em cinco minutos pede para ir à casa de banho e que até tem autorização médica ainda não percebi bem porquê.vou_me lá eu preocupar com quarenta e cinco minutos de falta minha quando quem está em falta não sou eu mas sim os vinte alunos do sexto H que tenho no último bloco da tarde de quinta feira mais a colega presente que está ausente?e tentei. juro que tentei várias vezes . pelo que há de mais sagrado seja lá onde for eu juro que tentei. tentei manter algum interesse pelo que se tinha de fazer. mas parece que a única interessada ali era eu. tentei manter alguma disciplina e silêncio na sala de aula. por breves instantes era conseguido. tentei realizar a auto e hetero avaliação. afundada em fichas de trabalho dossiers e lápis e lapiseiras por cima da secretária.tudo isto enquanto a colega impávida e serena consultava as planificações de todos os colegas de grupo no dossier da disciplina. tudo isto enquanto a colega se levantou e se dirigiu ao fundo da sala onde tem um armário só dela para de lá trazer um saco de cartolina em amarelo vivo daqueles onde se costumam colocar as embalagens das amêndoas da páscoa para se voltar a sentar guardando nele o cacto que tinha comprado na feira de ciências. tudo isto enquanto acomodou com muito amor e carinho o seu cacto dentro do seu saco amarelo. tudo isto enquanto permaneceu sentada de braços cruzados em silêncio na sua secretária.cinco minutos antes das dezassete e trinta pedi desculpas aos alunos e à professora pela minha incapacidade de dar a aula. o silêncio abateu_se com toda a força na sala. o mesmo silêncio que eu pedi no início para conseguir trabalhar e que a turma até conseguiu cumprir. ninguém mas não houve ali ninguém que acreditou em mim. a não ser eu. a única que se levou a sério fui eu. a única que acreditou fui eu.fragilizada pela impotência de conseguir permanecer peguei na pasta e na mala levantei_me e despedi_me. o daniel a diana o ruben e a carina desejaram_me bom fim de semana. ainda me falta sexta pensei. a professora que fica ali na sala é que amanhã tem dia de folga. saí da escola e já depois de ter passado o portão respirei fundo. bem fundo. por hoje chega. já tenho a minha dose.hoje bati com a porta senhor presidente do conselho executivo.mas só por hoje. amanhã sou a primeira a entrar.quantas vezes mais?
13.03.08

18.8.09

onde andas tu?















carlos amava dora que amava lia que amava léa que amava paulo que amava juca que amava dora que amava carlos que amava dora que amava rita que amava dito que amava rita que amava dito que amava rita que amava carlos amava dora que amava pedro que amava tanto que amava a filha que amava carlos que amava dora que amava toda a quadrilha






flor da idade de chico buarque




















eu ando onde se anda onde quase ninguém faz questão de andar e desando_me andando como se andar fosse o princípio de te querer comigo e assim sem nada nos pés para te não seguir porque sim dizer_te que me andas dentro sem eu saber para onde ir ou fugir de ti e não se saber como se vai sequer. assim como que de cabeça perdida.











onde andas tu?



fotografias de waldemar wienchol

25.7.09
















que queres que te diga se nem eu sei?






















que queres que te diga se nem eu sei? é só este gozo imenso que me dá o escrever. saber que não adianta escrever o que não se sabe nunca dizer. diz que disse mas não se diz. e será que alguma vez me lês? mas lês mesmo? pensas que me entras assim nas mais fundas entranhas sem nada dizeres na vã tentativa de me conseguires ler. gostaria ainda de um dia me aproximar o mais possível tocar_te nos dedos e com eles espalhar_me ao comprido na página. era esse o gozo da escrita sem se ler. ter aquele arrepio pela espinha acima sabes? mas como se não te conheço? mas sei que tentas ler_me. estou mesmo a ver deves pensar "bem espremida coitada não tem nada de nada". será? se é assim que me atiro à página com tudo para dar e não ter nada guardado para receber. raios me partam! a mim e ao meu escrever!









fotos de observatory
ia gagliani
e wkurwarjacya

13.7.09

efectivamente











efectivamente, adv. com efeito; realmente.





























adoro o campo, as árvores, as flores
jarros e perpétuos amores
que fiquem perto da esplanada de um bar
com os pássaros estúpidos a esvoaçar
adoro as pulgas dos cães
todos os bichos do mato
o riso das crianças dos outros
cágados de pernas para o ar
efectivamente escuto as conversas
importantes ou ambíguas
aparentemente sem moralizar
adoro as pegas e os pederastas que passam
(finjo nem reparar)
na atitude tão clara e tão óbvia de quem anda a engatar
adoro esses ratos de esgoto
que disfarçam ao dealar
como se fossem mafiosos convictos habituados a controlar
efectivamente gosto de aparências
imponentes ou equívocas
aparentemente sem moralizar




rui reininho























efectiamente só efectivamente a sós com efeito assim só realmente sós adoro o facto de ser única sem par parceiro ou companhia com efeito e realmente desacompanhada efectivamente assim sem me moralizar





















fotografias de alexandre parrot e robert parkeharrison

27.5.09





era esse o tempo em que nenhum rosto se parecia com o teu a mais bela mulher do mundo quando era o amor que definia o cânone da beleza e só tu entravas nesse patamar em que a respiração fica suspensa os olhos não se desprendem de outros olhos e mesmo que tenhas partido são eles ainda que guardo em mim como se o olhar que nos prendia um ao outro tivesse apagado o mundo do meu horizonte em que só tu cabias mesmo que não to tivesse dito e só não sabia era se tu sentias por mim o mesmo que eu sentia por ti que de tal forma me oprimia que nem queria saber o que tu na verdade sentias porque a verdade eram os teus olhos e os lábios que ao abrirem-se abriam o sorriso que me abria a vida onde só tu cabias até ao dia em que desapareceste para que eu não mais te visse até esse dia em que passaste por mim e só os olhos eram os mesmos fazendo com que anos cidades dias e noites insónias e dores se tivessem apagado entre mim e ti nesse breve instante em que revi os teus olhos e não mais te vi.






um antigo amor de nuno júdice














já não tenho dor. anestesiei_me de nada. todos me dizem: "estás mais magra" e começo a não me preocupar. o melhor é não pensar. não estar. não te ver. não falar. assim como que fechada passa_me o tempo devagar e não faço nada.








até quando?














fotos de oana mangiurea e katia chausheva

3.5.09









"amor", em latim, é uma palavra composta pelo prefixo de negação "a"(significa "sem") e pelo substantivo "mors" (que significa "morte"). assim, "amor" tem o sentido de "sem morte" ou imortalidade.

até nos esquecemos que o tempo passa quando estamos juntos. não é todos os dias que se encontra uma coisa destas.






















- Não quero trabalhar, nem estudar, o que eu quero é namorar- disse a princesa e cruzou os braços.Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e nao havia nenhum namorado para ela.Quando se acabou o dinheiro, acabaram-se as criadas e acabou-se a comida. A princesa morreu de fome, muito suja, mas sempre de braços cruzados.E nem os cangalheiros nem os médicos legistas lhe conseguiram descruzar os braços porque nem os cangalheiros nem os médicos legistas eram o namorado da princesa de braços cruzados porque nao havia nenhum namorado para ela.Foi conservada em formol dentro de um frasco de vidro transparente para ser mostrada aos visitantes do Museu de História Natural. Na placa que dá informaçoes sobre o conteúdo do frasco está escrito em latim: "só descruzará os braços quando lhe aparecer um namorado". Todos no Museu têm a esperança de que um dia um visitante saiba latim e seja namorado da princesa de braços cruzados.Mas a empregada do balcão do bar do Museu, menos positivista do que o resto do pessoal, resolveu fazer o mesmo que a princesa de braços cruzados. Por isso não há bicas para ninguém.

















a princesa de braços cruzados do livro a bela acordada de adília lopes




























dos braços enleados que me ficaram marcados nada quase me resta do tacto. os dedos apresentam cicatrizes várias que me impedem de se sentir ou sem sentir ainda te sinto apesar de tudo por aqui indicar o contrário. pouco me resta é verdade talvez só o permanecer_me assim de braços cruzados à espera de um sinal.



























fotografias de martin iman andreea anghel e koos goris

11.4.09

a morte não me assusta. o que me assusta é continuar viva.










_ não era eu . era outra. andava como que deslumbrada. entendes?
_ não. não entendo.














deslumbramento ofuscação momentânea causada pela muita luz fascinação
fascinação encantamento quebranto feitiço
















_ não era eu. era outra. andava como que deslumbrada. entendes?


não. não entendo. como entender uma coisa que não se entende? e é para entender um entendimento não possível?






assim me entras sem aviso prévio e tomas conta do que não deves. e assim como entras retiras_te. sem avisar. como entender isto? no inesperado desta caricata situação não me sei resolver. afundo_me no mais baixo dos actos. na cobardia de calar_me. a insistência de continuar viva oprime_me. fala mais alto. nunca virei costas. apenas fechei os olhos. e é nesta cegueira que me encontro de vez em quando contigo. sem o querer. encho então o copo e acendo mais um cigarro. que fazer além disto que tanto me dá prazer. pintar? não te quero sequer ver. o deslumbramento é excesso de nós. coisa que nunca houve claro. daí continuar a fascinação. entendes?






a morte não me assusta. o que me assusta é continuar viva.










fotografias de alexandra pasca

26.3.09

come_se o que se tem vontade. e a vontade é já.

















come chocolates pequena
come chocolates
olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates
olha que as religiões todas não ensinam mais que confeitaria
come pequena suja come
pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes
mas eu penso e ao tirar o papel de prata que é de folha de estanho
deito tudo para o chão como tenho deitado a vida




na tabacaria de álvaro de campos

























come_se o que se tem vontade. e a vontade é já.


se o meu jejum só a mim me diz respeito se quiser comer chocolate deixo de jejuar. rasgo o papel devagar e a prata essa toco_lhe muito ao de leve para tentar conseguir que se não rasgue. de seguida estendo_a pela mesa e passo_lhe os dedos por cima na tentativa de o desembrulhar. após deitada espreguiço_me a saborear. tem de ser amargo claro. bem amargo. um abuso se não amargar. aliso_a junto a mim tão perto mas tão perto que mal se consegue mexer para lhe tocar. é fria. mas dobrada sempre me serve de mortalha. o filtro esse é a tua boca claro. todo o doce tem de ser amargo. doce é o corpo. enrola_se a língua enrola_se o ar enrola_se o cigarro.









come chocolates pequena come chocolates























fotos de daniel nguyen e piotr das









16.3.09

não se precisa dizer nada















até hoje, todas as minhas cartas de amor não são mais que a realização da minha necessidade de fazer frases. se o «prince charmant» vier, que lhe direi eu de novo, de sincero, de verdadeiramente sentido? tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade!





do diário de florbela e. 16 de julho 1930












há um mês o fim. sem ter fim. não há fim. mas fim de quê?



há que haver um recomeçar. um começo. um iniciar_mo_nos. sem se pedir sem se querer sem se esperar sem avisar. há que haver um iniciar. sem se dizer porque não se precisa dizer sem se avisar porque não se precisa de avisar sem se querer porque se precisa de se querer sem recomeçar porque não se precisa de começar nada de nada absolutamente nada. há que haver um recomeçar. os gemidos são cúmplices e testemunhos na sala. há que baixar a cabeça como que num voto secreto que se mostra submisso ao que é inevitável. respira_se o ar. inala_se a boca. inspira_se expira_se suspira_se. há quanto tempo assim não se ria. volta_se a encher os copos e bebe_se tudo de um trago. escorre_se o suor na garganta. aproveita_se o facto de ninguém nos espreitar. e lá fora nada se passa. só na sala. passo as mãos pelas costas até ao fim dos braços. lanço_me na pele que conheço de olhos fechados. de vez em quando espreita_se. só para confirmar. que fim anunciado? não há fim. não se espera ter fim. como findar? abrem_se os braços a um sem fim de nada se ter de dizer absolutamente nada falar e só a um não se precisa de dizer nada.



















fotografias de monica k.

17.2.09







.













santiago __ gritou __ que tens tu?
santiago nasar reconheceu_a.
_ mataram_me __ disse ele.
tropeçou no último degrau mas levantou_se logo. teve mesmo o cuidado de sacudir com a mão a terra que tinha nas tripas. depois entrou em casa pela porta de trás que estava aberta desde as seis e desabou de bruços na cozinha.






crónica de uma morte anunciada
de gabriel garcia márquez













fim.

16.2.09

se me dói tanto
mas tanto
que nem imaginas




















dói_me dói_me dói_me dói_me
tanto mas tanto que nem imaginas
dói_me dói_me
tanto
mas dói_me
tanto tanto tanto





dói_me
tanto
mas dói_me
tanto tanto
que nem imaginas





















fotografia de amelka

15.2.09

uma questão de querer voltar_te





eu te proponho nós nos amarmos nos entregarmos nesse momento tudo lá fora deixar ficar eu te proponho te dar meu corpo depois do amor o meu conforto e além de tudo depois de tudo te dar a minha paz eu te proponho na madrugada você cansada te dar meu braço e no meu abraço fazer_te dormir eu te proponho não dizer nada seguirmos juntos a mesma estrada que continua depois do amor ao amanhecer









proposta de simone



























a proposta corre_me de alto a baixo da cabeça aos pés passando_me pela garganta tão fechada sem a conseguir digerir de uma assentada proposta não decente diga_se de passagem mas que tanto desamor teima em fazer correr nas veias correndo sim o risco de as cortar qual banhar em vermelho a escorrer_me por entre os dedos à falta de os pousar na tua pele que sim ainda retenho em mãos por não as lavar mas limpas em suor faz já bastantes dias engulo os pensares a evitar vomitar em raivas ódios ou dissabores de língua que em cada golada acende a azia concentrada no estômago por alimentar é então que saio à rua para apanhar ar parando_se aí a digestão quando não te quis pensar e o facto de não me saíres da cabeça o tempo inteiro dá_me náuseas sem diagnóstico possível sem xanax há tontarias em pé de desequilíbrio e desigualdade mas não caio e não são ataques é a proposta que não há é só uma questão de querer voltar_te.
fotografias de rafal bednarz

14.2.09

merda para isto tudo
















tanto mar tanto deserto
mau passado futuro incerto
não me digas que não


tanto falar em surdina
contigo e só triste sina
só não me digas que não


vou partir vou voltar
reconquistar o prazer
não me digas adeus


vou viver outra vez
renascer vou gritar
nunca digas adeus







nunca mais digas adeus de rui reininho






















a deus pecado meu blasfémia mentira purgatório de infernos em passados e já falei com o outro mundo e então? arrependido bem vindo ao passado queimado cansei_me da beleza barata e palavras grátis. merda para isto tudo.






faz todo o sentido não faz?







não me digas que não

11.2.09

" é um lugar de abandono naufragado. pede_me que lhe diga em que penso."

digo_lhe que já não penso em nada. não quero pensar.
















é a noite que chega agora. diz_me que me lembrarei toda a vida desta tarde mesmo quando tiver esquecido até o seu rosto o seu nome. pergunto se me lembrarei da casa. ele diz_me: olha_a bem. digo_lhe que é como qualquer outra. ele diz_me que sim que é isso como sempre.




o amante de marguerite duras pág. 66














é isso. como sempre. com o tempo apagam_se as memórias do rosto. e até do nome. do rosto do nome do cheiro do toque da casa. gastam_se os sentidos de não os usar. e com o passar do tempo fica quase nada. fica nada. como sempre. é isso. como sempre.

mas revejo ainda o rosto. e lembro_me do nome. vejo ainda as paredes da sala e do quarto. levanto_me para me voltar a levantar e a debruçar_me em nada. não há corpo. não há toque. não há cheiro. não há rosto. não há nome. só há quarto.




"os beijos pelo corpo fazem chorar. dir_se_ia que consolam"
desconsolo agora. não há beijos. não há corpo. não há nada. há quarto.







fotografias de black mirror

8.2.09

não é o que ele quiser
é o que nós queremos








não se esqueça de mim
não se esqueça de mim
não desapareça
que a chuva tá caindo
e quando a chuva começa
eu acabo perdendo a cabeça
não saia do meu lado
segure o meu pierrot molhado
e vamos embolar ladeira abaixo
acho que a chuva ajuda a gente a se ver
venha veja deixa beija seja

o que deus quiser




chuva suor e cerveja de simone

















seja o que tu quiseres se deus não existe e se estivesse vivo era muito velho seja o que tu quiseres mas não te esqueças de mim seja o que tu quiseres mas vem ter comigo para irmos para lá de tudo o que nos dói nos proíbe nos impede neste sem sentido sem fim seja o que tu quiseres mas deus não existe deus que me perdoe esta luxúria com sentido sem ti e não te esqueças de mim vem vê deixa beija o que nos apetece


não é o que ele quiser é o que nós queremos
















fotografias de katia chausheva

4.2.09

estupor de um raio!




esta página contém itens seguros assim como itens que não são seguros.
deseja ver os itens não seguros?
_ estupor de um raio!















_ nunca mais nos vamos amar. nunca mais nos podemos ver.
_ eu sei _ diz ele.
a noite da insistência dela na separação.
ela sentou_se enclausurada em si mesma.
_ nunca mais. aconteça o que acontecer.
_ sim.
_ acho que ele vai enlouquecer. percebes?
ele não diz nada desistindo da tentativa de a puxar para dentro de si.

uma hora depois saem do quarto mergulhando na atmosfera seca da noite. ouvem ao longe o gramofone do cinema "music for all" de janelas abertas por causa do calor. terão de se separar antes que o cinema feche pois poderão de lá sair conhecidos dela.


sente que se lhe esvaíram todos os fluidos do corpo sente_se cheio de fumo. a única coisa viva é a consciência do desejo e da ausência que o futuro lhe reserva. aquilo que gostaria de dizer não o pode dizer a esta mulher aberta como uma ferida ainda imortal na sua juventude. não pode alterar o que mais ama nela a sua aversão ao compromisso onde o romantismo dos poemas que ela tanto ama ainda se enquadra naturalmente no mundo real.


agora não há beijos. um abraço apenas. ele desprende_se dela e afasta_se. depois vira_se para trás. ela continua no mesmo sítio. ele retrocede e pára a poucos metros dela dedo em riste a sublinhar a frase.

_ só quero que saibas uma coisa. ainda não tenho saudades tuas.
_ hás_de tê_las _ diz ela.







a partir deste ponto das nossas vidas segredara_lhe ela horas antes ou encontramos ou perdemos as nossas almas.

















michael ondaatje em o paciente inglês pág. 113 3 114























ainda me vou rir do que se vai passar ou talvez não agora que me atiraste para os bastidores sem dó nem piedade julgando_me assim atiçada aos cães porque não nem esses me tratam como tu me tens tratado. abaixo de cão. é que não sou feita de pedra. tenho todas as entranhas alvoraçadas por tamanha indisposição. agonia_me saber assim e o vómito esse é natural. mas tudo com respeito meu caro. um imenso respeito pois claro. nada como respeitar. mas que respeito caramba!? trata_se aqui de respeitar o quê afinal? respeitar a tua presença na primeira fila aplaudindo a minha indigesta performance? é que neste acto eu não sou a figura principal. o principal és tu. portanto se alguém aqui tem vontade de se vomitar não serei eu apesar de atirada para segundo plano aqui a secundária faz parte de uma história de alguns anos e por esse motivo tenho direito ao meu papel no guião. estupor de um raio! até aqui nada de mais se não se tratasse de uma pequena grande história. deixo que abras as cortinas e assistas porque sei que desejas tanto ver_me actuar. mas este palco não me pertence nunca o pisei nunca o quis subir nunca entrei nunca. sabes? é que não gosto de luzes nem de público nem de aplausos. o meu género é mais assim digamos a dar para o discreto. uma personagem que quando se assume passa sorrateiramente sem quase deixar rasto. por vezes nem faz parte do guião. aparece sem se saber muito bem porquê nem quem é mas que faz falta na história quanto mais não seja para virar tudo do avesso e deixar todos à nora. é. é o meu género meu caro. estupor de um raio! queres que dance? não danço. queres que cante? não canto. queres que te ame? não. deixa_me em paz. aplaudes? estupor de um raio!














só porque ando um pouco cansada de falar tanto em desamor. que é isso?














fotografias de cal calkins

30.1.09

então. sempre ouvi dizer a vida a dois é um osso duro de roer
e de enterrar e esgravatar para cheirar e confirmar o lugar
o asilo o lar doce lar
excepção feita aos onanistas
só ligam ás fotos das revistas

tu lavas eu limpo
tu sonhas eu durmo
tu branco e eu tinto
tu sabes eu invento
tu calas eu minto
arrumas e eu rego
retocas eu pinto
cozinhamos para três
tu mordes eu trinco
detestas eu gosto
magoas eu brinco

mas se me morres eu sinto



cerimónias de rui reininho














naturezas mortas é assim sim. sou natural de mortes. e o que me consegue ainda manter viva é o fumo. essa coisa cinzenta com que me levanto e me deito todos os dias. fuma comigo. trava o cinza na garganta e fica uns dias sem respirar. não te assustes porque não é disso que se morre. acender o isqueiro e levar o cigarro à boca é como que um beijo. um acto de confissão. agora abre a língua e deixa_me retocá_la de cinza. apaga a boca e deixa_ me respirar o teu fumo. limpa a garganta na minha.


tu sais eu fico
tu morres eu sobrevivo
tu choras eu não rio
tu foges eu não


mas se me morres eu sinto
fotografias de marta laura