12.10.07

janeiro 1930 diário do último ano






















Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir – todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.

Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros.. talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.

Nas horas que se desagregam, que desfio entre os meus dedos parados, sou a que sabe sempre que horas são, que dia é, o que faz hoje, amanhã, depois. Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciência nítida dos minutos que passam e dos que se vão seguir.Como compreender a amargura desta amargura?

«Attendre sans espérer» poderia ser a minha divisa, a divisa do meu tédio que ainda se dá ao prazer de fazer frases.

Não tenho nenhum instinto especial ao escrever estas linhas, não viso nenhum objectivo, não tenho em vista nenhum fimQuando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo – uma alma – se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser.E realize o que eu não pude: conhecer-me.



florbela espanca

8 comentários:

Ar de Lu(a) disse...

Florbela Espanca....uma das minhas eleitas...
"Não tenho nenhum instinto especial ao escrever estas linhas (...) é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer(...)E realize o que eu não pude: conhecer-me."
Palavras sábias que me tocam tão profundamente...

Um fim de semana excelente Yvone

Bj

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ disse...

Florbela Espanca uma das melhores entre tantas...

Mulher e poetisa...

...e quem consegue conhecer-se de facto...??

******************bom fim-de-semana

Blue Velvet disse...

Falar de Florbela Espanca é-me difícil de tanto que gosto dela.
Este monólogo tão lindo, tão sofrido e tão sincero, toca-me especialmente.

Esta e as outras escolhas do Blog, são excelentes.
Bom Domingo

Luna disse...

ja todos conhecemos um pouquinho do interior dessa grande mulher que foi e é eternamente Florbela Espanca...
um beijoo
bom fim de semana

Edson Marques disse...

Que maravilha!

Nem consigo falar mais nada...

Abraços flores estrelas..

Amaral disse...

Florbela! Bela, misteriosa, sofrida!
"Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele..."
Quem conheceu Florbela?... Quem conhece a Florbela que se desconhecia... a poetisa que escrevia de alma nua... a mulher que naufragava na corrente dos seus dias... a dona de si, sem que o soubesse o seu coração...

Victor disse...

Querida Ivone
Uma partilha soberba, só possível por quem tenha tanta sensibilidade como tu própria tens.
Ainda ontem assisti a uma tarde de poesia em que sonetos da Florbela dialogavam com sonetos de um poeta que lançava o seu livro de sonetos.
Obrigado, minha querida Amiga.
Beijinhos.

ivone disse...

lu(a)
"é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer..."
nem sabes quanto lu nem sabes o quanto...
bj

tu lias?
há gente que consegue. eu não. florbela também. e tu?
bj


blue
"Falar de Florbela Espanca é-me difícil de tanto que gosto dela."

ao contrário de mim blue é-me tão fácil falar dela porque gosto imenso de florbela.


luna
como dizes bem "eternamente florbela" porque florbela é eterna.

edson
sem palavras ao ler estas letras dela...

amaral
florbela foi e continuará a ser um enigma...
"a poetisa que escrevia de alma nua..." gostei!

victor
de soneto em soneto e mesmo sem ser soneto florbela é única.
bjs