2.8.08

"Vem comigo!"

"Vem comigo!"























" e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,isto é, a porta tinha-se fechado até outro dia,que é aquele que acaba por nunca chegar, e então as palavras caiem no vazio, como se nunca tivessem sido pensadas."



































Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo,
num sítio em que ambos nos possamos falar, de facto,
sem que nenhuma das ocorrências da vida
venha interferir no que temos para nos dizer.
Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia ser, até,
um lugar sem nada de especial,
como um canto de café,
em frente de um espelho que poderia servir de pretexto para reflectir a alma,
a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que disfarce o que,afinal,
não conseguimos dizer.
É que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem á comunicação mais exacta de dois seres,
a não ser que nos fale,de súbito, o sentido da despedida,
e que cada um de nós leve, consigo, o outro,
deixando atrás de si o próprio ser,
como se uma troca de almas fosse possível neste mundo.
Então, é natural que voltes atrás e me peças:"Vem comigo!",
e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo,
mas era tarde,isto é, a porta tinha-se fechado até outro dia,
que é aquele que acaba por nunca chegar,
e então as palavras caiem no vazio,
como se nunca tivessem sido pensadas.
No entanto, ao escrever-te para marcar um encontro contigo,
sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro:
a confissão mais exacta,
que é também a mais absurda, de um sentimento;
e,por trás disso, de que o mundo há-de ser outro no dia seguinte,
como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores do céu,do mar,da terra,
e do próprio dia em que nos vamos encontrar,
que há-de ser um dia azul,de verão,
em que o vento poderá soprar do norte,
como se fosse daí que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo das pétalas,
o vermelho do sol e o branco dos muros.















carta (esboço)
nuno júdice






























































o que me fascina na escrita é precisamente a magia de se conseguir dizer tudo o que se quer manter secreto.


nunca uma presença me foi tão desejada como a tua. quero acreditar que um dia ainda vais marcar encontro comigo ali onde ninguém nos ouça . possa eu então dizer_te o que nunca ainda te disse nem tu esperas ouvir de mim. será surda a minha conversa assim como o é o gesto em que me lanço sempre que te imagino por entre as minhas mãos. gasto_me nos dedos por cada vez que os passo no teu pescoço como que querendo dar_lhe a volta inteira e puxar_te para mim.


é assim que me imagino quando te encontrar. à espera num canto sentada à mesa de um café qualquer sem hora marcada para chegar. a chávena de café já vazia e eu despida de tanto cansaço. a olhar descaradamente um relógio de corda pendurado na parede mesmo à minha frente e que tento adiantar para te ouvir chegar.


vai ser assim ao final da tarde numa tarde de verão atrasado no final do dia que tarda. para que possamos juntos respirar finalmente o crepúsculo tão esperado. vou aguardar por ti na espectativa da tal fantástica vinda que me moi o juízo há tanto tempo sem parar. e se não vieres vou voltar lá. vou ir para esperar até cair de cansaço até não me restar qualquer sombra de força que me faça levantar e voltar.



é assim sempre o gesto igual quando te imagino que me vais chegar.

















gastam_se_me os dedos sempre que os passo no teu pescoço que ainda não senti e a quem quero dar a volta toda completa quando te puxar para mim.









com o espírito da paz
contigo e os madredeus





fotos de tommy p.
e katia chausheva
















26 comentários:

Baraújo disse...

encontros e desencontros... da vida.. da nossa e dos outros... permite-me que te diga, que um encontro com esta música de fundo, só poderia dar um encontro feliz...

mesmo que os desencontros das palavras surjam...
o mesmo poderá não suceder ao encontro das mãos que tanto revelam...
e a esse encontro de olhares, que revelam segredos a quem se digne de parar um pouco e abstrair da sua realidade, para ler, o que a outra pessoa diz, pernoitado pelo silêncio das palavras...

hoje... hoje foi-me um dia, em que a noite se encheu de um manto terbulento de emoções [já to revelei anteriormente num outro post], em que a música, se funde entre os sentidos... só falta o tocar o ar.. o saborear a companhia... para um qualquer encontro de almas...

beijo terno

Moon_T disse...

mais uma vez, nao ouso tentar escrever o que me trespassa quando te leio...
embora desta vez nao tenha coincidido com o que estava a ouvir, deixo aqui uma musica que as tuas palavras me fizeram recordar:
http://www.youtube.com/watch?v=6vnKz2AdjSE

obrigado
e obrigado pelos teus comments no meu canto tambem, sempre bem vinda

Corvo Negro disse...

Melancólica forma de sentir e de esperançar.
Porque será que fico com a impressão de que… afinal não havia algo mais para fazer!
Circunstancial forma de o declarar.

ivone disse...

baraújo

culpa que me segues sem eu querer
jura que me deixas decidir
aceitas ou não que nunca é tarde
aceitas ou não que voltarei
se calhar se calhar
amahnã há_de haver mais
mas eu não sei
se calhar devagar
vou voltar à mágoa que deixei

pedro ayres magalhães

ivone disse...

moon_t



I miss you
But I haven't met you yet
So special
But it hasn't happened yet
You are gorgeous
But I haven't met you yet
I remember
But it hasn't happened yet

And if you believe in dreams
Or what is more important
That a dream can come true
I, I will meet you
I was peaking

But it hasn't happened yet
I haven't been given
My best souvenir
I miss you
But I haven't met you yet
I know your habits
But wouldn't recognize you yet

And if you believe in dreams
Or what is more important
That a dream can come true
I miss you

I'm so impatient
I can't stand the wait
When will I get my cuddle?
Who are you?
I know by now that you'll arrive
By the time I stop waiting
I miss you


enquadra_se bem no post
porque não? bjork ...

Moon_T disse...

precisamente...

ivone disse...

corvo negro

o que me fascina na escrita é precisamente a magia de se conseguir dizer tudo o que se quer manter secreto

oldmirror disse...

Provavelmente, sentado à mesa num outro canto ele fizesse o mesmo, como se o espelho servisse de pretexto, não para reflectir a alma mas o desencontro. Não há hora nem mesa marcadas. Há mesas nos cantos, há escolhas a fazer, há demasiado cansaço na espera e demasiados olhares para os ponteiros do relógio de corda que o impedem a ele e a ti de olharem em volta e aumentarem a hipóteses de se cruzarem bem no meio da sala.
Afinal, ele também esperava...ambos esperavam.

sinais-de-fumo.blogspot.

SentidoS disse...

e assim refazemos o dia, um diálogo, aceno, gesto que muitas vezes transborda os olhos - silêncio,
e mastigamos os caules de um compromisso, ainda que,
em contrabando no rosto


belo espaço - este....bem hajas

~pi disse...

nua: à fronteira

do

pescoço



~

Maria José disse...

Um esboço... que desde logo diz, porque se faz de palavras.

Karlinne disse...

Poxa, teu blog sempre me dá maravilhosas sensações. talvez eu nem tenha dito, mas é um dos meus preferidos e se não comento sempre é pq tenho medo de "invadir" teu espaço e pq tbm nem sempre as palavras estarão à altura das sensações que tuas palavras me proporcionam.

beijinhos!

ivone disse...

oldimorr

mesmo sem nos cruzarmos encontramo_nos...sem ser bem num meio da sala ou num canto qualquer de um café andamos por aí assim sem saber de nós apesar de sabermos que somos e vamos estar um dia. e vai chegar não tarda. porque esperamos que sim.




sentidos
sem compromisso ainda e nunca porque está fora de questão comprometermo_nos com o que quer que seja a não ser connosco claro.
bem hajas tu




~pi
pára à altura do pescoço por favor




maria josé
e uma carta que nasce de sentir em letra



karlinne
só invande quem eu deixo e quem eu quero que invada por isso nada de ter medo de mim. medo sim das palavras. por vezes tenho mais receio delas do que das pessoas.
e as minhas sensações assim nelas expostas nunca serão inferiores às tuas. apenas poderemos ter maneiras diferentes de nos expressar só isso.uns conseguem mais que outros. e uns sim conseguem outros não e outros ainda assim assim. por mim considero_me ums sortuda.

Peach disse...

Pergunto-me, de que serve afinal dizer tudo, mas ao mm tempo manter segredo?
eu entendo o que queres dizer :)

eu gosto de ler segredos :)

adorei as tuas palavras, e o teu blog. Intimista.

Obrigada pela visita ao nosso noites nuas.
voltarei

beijo

Liliana disse...

:) também me gasto nos dedos à volta do pescoço e a puxá-lo para mim... também o espero tantas vezes num café da esquina e nessas esperas, nunca me desencontro com ele, mesmo que ele não apareça... respiro o perfume da sua pele na minha memória e visto-me dos seus abraços... quanto aos beijos, esses, deixam-me nua - e tudo o que sinto fica tão exuberante em mim, que não consigo fazer outra coisa, senão sorrir...

"o que me fascina na escrita é precisamente a magia de se conseguir dizer tudo o que se quer manter secreto" - tão precisamente e simplesmente isso... :)

bjinho*

TINTA PERMANENTE disse...

Por aqui, perco-me em silêncios contemplativos!...


abraços!

Dois Rios disse...

as palavras saltam no silêncio.

a despedida fragmenta os sentidos

o amor é inexato.

beijo,

Mia disse...

há encontros inevitaveis...
encontro de almas, encontros de sentimentos, encontro de corpos, encontro de olhares, encontro de seres...
há encontros inevitaveis...

belissimas palavras e fotos

NAELA disse...

Ivone senti em breves momentos fazer parte deste quadro tao bem caracterizado, sentimentos intensos, profundos com sabor a alma...nem todos os textos nos fazem sentir assim, tal as imagens tao bem escolhidas!
Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia ser, até,
um lugar sem nada de especial,
como um canto de café,
em frente de um espelho que poderia servir de pretexto para reflectir a alma,
Adoreiiiiiiiiiii

O Profeta disse...

Ai quem me dera agitar o tempo
Atirar a mágoa à voragem da noite
Arrancar as raízes ao pensamento
Sentir a paz que uma lagoa acolhe


Boa férias


Mágico beijo

Carlos D disse...

é mais facil escrever
os segredos do coração
do que fazer acontecer
escrever com os pés no chão


bjs e um sorriso

Carla disse...

não sei se me perco nas palavras, se nas imagens...se na perfeita conjugação das duas coisas que tu tão harmoniosamente consegues
beijos

Victor Oliveira Mateus disse...

acho que os abcessos de algumas escritas, que, sob o disfarce de
se quererem formalmente inovadoras,
e que, com os seus malabarismos sintácticos, mais não fazem do que esconder incapacidades... acho -
dizia eu - que essas purulentas máscaras nunca conseguirão estancar
a autênticidade das escritas que
dizem. E são estas últimas as que
me interessam. Obrigado pelo texto!
Bjs.

ivone disse...

victor oliveira mateus
acho mas só acho que de vez em quando me corre até tinta nas veias como se isso fosse um soro de verdade...acho

diana disse...

"o que me fascina na escrita é precisamente a magia de se conseguir dizer tudo o que se quer manter secreto"

Perfeita esta frase. Realmente é esse mesmo o encanto de escrita.

E a vida é sempre preenchida de encontros e desencontros. Esperamos sempre esse dia azul, com o vento de norte, onde possamos dizer as palavras para que elas não caiam.

D. disse...

Arrebatador.

D.