3.9.08

um caso de amor...












hoje já não faço anos duro somam_se_me dias
















No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui ai, meu Deus! o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...











aniversário de álvaro de campos








































este verão tive um caso de amor...
dizem que os amores de verão duram pouco, são efémeros, nascem rápidamente e pouco depois morrem e ficam enterrados na areia, fugazmente envoltos em mar de tão salgados que são.
o meu não foi assim. pelo contrário, irá ficar comigo até ao dia em que eu morrer. o meu caso foi doce...adocicado diria. como uma marguerita que bebi com sal à volta do rebordo do copo e de gelo picado que se derretia a cada beijo meu.



fez talvez dez anos que ele saiu de casa. desde aí tenho andado sempre sózinha incluíndo alguns verões claro. saímos juntos para um lugar onde o mar beija o céu onde as cegonhas cantam ao final da tarde e acasalam indiferentes aos olhares indiscretos dos turistas onde os melros roubam os sonhos pela madrugada onde o sol nos beija a pele pelo entardecer onde o sal da água nos acaricia sempre que lhe tocamos onde as andorinhas do mar dançam ao sabor do crepúsculo alheias ás minhas constantes e persistentes perseguições de olhares.
é o único lugar onde me enrolaria na areia...
aqui na comporta.



não digo que seja bonito, sedutor daquele tipo de homem que faz com que uma mulher pare na rua ou volte a cabeça para olhar novamente.para mim é bonito. alto, talvez um metro e oitenta, magro, sem o ser exageradamente não muito atraente de corpo porque tem um andar desajeitado, moreno, um corte de cabelo que não é corte, não muito curto nem muito comprido, ondulado como que a lembrar as ondas largas do mar, negro de um preto que abre um pouco com o sol, sobrancelhas fartas sem o serem em excesso, olhos castanhos de um castanho claro adocicado nariz pequeno sem ser arrebitado, boca doce com um sorriso malandro, dentes bonitos muito brancos um pouco desalinhados o que lhe dá uma certa graça, pescoço altivo e mãos de piano! as mãos são lindas. já lhe disse uma vez: "tu tens mãos de pianista! dedos alongados finos bonitos de tanta elegância.gosto tanto das tuas mãos!"


faz talvez dez anos que ele saiu de casa. tenho ainda o sabor amargo desse dia de quando me voltou as costas sem se despedir sem dizer adeus até amanhã quanto mais um beijo de até breve.


fiz questão de o levar a conhecer o museu do arroz. para quem não conhece o museu é um restaurante muito in onde quem nunca entrou não imagina o espaço sublime que é. este lugar tem qualquer coisa de mágico de surrealista...já foi em tempos um espaço onde se guardava e tratava o arroz dos campos ali ao lado. existe um espaço exterior quase a lembrar um alpendre onde ao final da tarde me posso deliciar com uma marguerita e saborear o verde dos arrozais semi deitada numa chaise longue de ferro forjado em preto com alguns almofadões onde me enrosco a ouvir música.


lá dentro saboreámos juntos os candelabros monstruosos suspensos do tecto, lindíssimos e magníficamente pendurados no céu da sala principal. a vela acesa na mesa serviu de desculpa para pequenas brincadeiras à semelhança do que se passou na véspera no bar enquanto nos preparávamos para sair e coloquei o copo da marguerita dentro da mala.
quando saímos do museu envolveu a minha cintura com o braço dele e beijou-me na face "obrigado pelo jantar" disse.
limitei-me ao silêncio dizendo-lhe que tinha feito questão de...



reli o "à beira do rio piedra" do paulo coelho. tinha-o lido faz exactamente dez anos antes. exactamente os mesmos dez anos de quando ele me deixou.
largou-me sem dó sem voltar a olhar para trás como quem fugia de mim. talvez porque se sentia saturado ou apenas farto ou cansado como quem diz "deixei de te amar".
ainda hoje transporto comigo o imenso sofrimento desse instante uma dor tamanha que se alastrou pelo meu corpo todo como um arrepio gelado que me subiu dos pés à cabeça e me fez permanecer quieta quase imobilizada em silêncio colada ao chão da sala vendo-o partir.
após dez anos voltei a conquistar aqueles beijos os mesmos risos os gestos atrapalhados as palavras descomprometidas aqueles abraços como quem transporta consigo um mundo sem medos com tamanha força que o peito se torna pequeno demais para desejar maior amor.
se ser feliz é isto então eu sou.



é uma história de amor "à beira do rio piedra" como o é a minha e "é desnecessário conversar sobre o amor porque o amor tem a sua própria voz fala por si só".
eu reli "sentei e chorei" como quem renasce e estende os braços como quem diz "fica" e ele ainda aqui está.
chama-se pedro vai fazer dezoito anos no próximo dia três de setembro pelas treze horas e vinte minutos e é meu filho.





























uma dor tamanha que se alastrou pelo meu corpo todo como um arrepio gelado que me subiu dos pés à cabeça e me fez permanecer quieta quase imobilizada em silêncio colada ao chão da sala vendo-o partir



















para o pedro
filho

escrito a quinze de agosto de dois mil e sete










fotos de antoni gabriele toppi

















9 comentários:

Baraújo disse...

posso dizer q me arrepiei...

bem, vou esclarecer o ambiente que me envolveu na leitura do texto...

o tempo. nublado. cinzento. a fazer esquecer o verão e a lembrar o inverno...
a musica do meu blog q so por si.. me arrepia a cada mm do corpo...

e dp... o aniversario do mil faces... q em si engloba tantos textos de genialidade.

e por fim.. o teu texto. magnifico. conseguiste transportar todos os pormenores de cenários que nascem sobre o nosso olhar...

magnifico.. mmo... fiquei sem palavras neste meu regresso pq sim. ha algum tempo nao vinha a estas bandas das leituras bloguistas.

fikei sensibilizado com o q escreveste na ultima linha do ultimo comentario q me fizeste...

beijo terno...

ps. o sentimento q transmitiste neste texto só o posso equiparar a outros tipos de amor. e acho q nenhuma se pode equiparar ao amor de mae. qto mto um dia ao de pai. q acredito por mais q digam. q é de todo semelhante.

Liliana disse...

* ...(sem palavras)... *

recolho-me em silêncio e contemplo a beleza do sentimento maior que (re)descubro a cada palavra que gravas nesta cantinho...

simplesmente arrepiante...

beijo de coração*

Carla disse...

perdi as palavras...no mar dos teus sentimentos
beijos

Moon_T disse...

li...
e como comentario deixo_te
um sorriso morno




obrigado


ps.
ao teu comentario so disse : touché

diana disse...

Quando amamos e vemos partir, pode passar muito tempo que nos vai parecer que foi ontem.


Post emocionante.

Graça Pires disse...

Sensível. Comovente.
Um beijo Ivone.

Victor Oliveira Mateus disse...

Vou ser mais analítico: defeito de ofício. Gostei da relação entre os dois textos: em Álvaro de Campos a Felicidade está sempre associada ao efémero e à distância física ou temporal, isto é: sou feliz? Fui,
mas lá ao longe... por pouco tempo
e isso marcou-me. Marcou-me de tal modo que a minha existência é mera duração. É aqui que entra o segundo texto: gosto dos textos de
tipo confessional. O mais interes-
sante é que este, só aparentemente
é um texto de carácter individual,
todos nos revemos no que ele narra.
Se o que caracteriza um texto literário (do não literário) é o ele poder dialogar connosco e ser
também um pouco da nossa história
(o seu carácter de universalidade) então esta perda (ou melhor: uma perda igual ou semelhante) já nós
a tivemos. Leiam-se os comentários
anteriores! Todos reacendemos a nossa dor ante a leitura deste texto. Que partida é esta? A morte?
A ruptura? O final de um sentimento
(deixei de te amar!)? Não vou continuar, pois já vai longo o comentário... acerca da partida pela morte lembra-me sempre as palavras da Ann Bancroft no filme
"Corações de Papel"... se é outro
tipo de partida/ruptura, e que se
me desculpe a soberba, mas já vivi
o suficiente para não acreditar em
soluções absolutas e definitivas em
relações humanas. A Beauvoir, que
recusou sempre ir viver com o Nelson Algreen, pq não conseguia afastar-se do Sartre, nunca meteu este último lá em casa. Nem sempre a proximidade física e a proximida-
de afectiva coincidem. Somos como Sísifo todos os dias temos de refazer estas coisas... com a minúcia de um tecelão. A isso cha-
ma-se "esperança"!

Um abraço grande, Ivone!

ivone disse...

baraújo
assim acontece escrita quando sai do corpo alma e coração.acreditas que cada vez que leio este texto de há um ano ainda fico com lágrimas penduradas nos olhos?



liliana
maio que o sentimento só o sentimento maior. aqui sente_se. e muito. demais. senão nem este canto tinha razão de ser.


carla
quando se perdem as palavras ganham_se sentidos


diana
nunca é ontem. há agora. resta_me o amanhã.
as partidas entristecem_me por isso não digo adeus. e as ausências essas chegam a fazer feridas.

graça pires
como o vento sim

victor oliveira mateus
esta partida não foi a morte nem ruptura nem um final de um sentimento. foi uma ida. sair de casa para outra casa. assim a não presença física foi uma ausência temporária em questão de espaço físico. porque no espaço emocional foi a de morte. cortaram_me as asas feriram_me o coração esqueceram_se de mim. o sentimento de eu não valho nada é superior ao eu não presto. e foi essa mágoa que me deixaram em testamento nesse dia.mas sabe o que é curioso nisto? só ao final de dez anos consegui falar sobre o assunto. transportei essa dor comigo este tempo todo e só agora que houve o regresso a casa é que disse bem alto: "ainda bem que voltaste!"

ivone disse...

moon_t
obrigada pelo teu sorriso morno