27.10.08

ainda não. não. amanhã. só. de manhã

notas à parte









se me morres não faço nada
sento_me a esperar




















" _ eu sou a que não procuras.
só então me lembrei que era ali que viviam em liberdade os internados mansos do manicómio municipal. tive que me identificar como jornalista perante a direcção do hospital para que um enfermeiro me conduzisse ao pavilhão das urgências. no caderno de admissões estavam dois dados: rosalba ríos dezasseis anos sem profissão conhecida. diagnóstico: comoção cerebral. prognóstico: reservado.

atravessámos uma sala a abarrotar com um forte cheiro a ácido fénico e os doentes enroscados nas camas. ao fundo num quarto só estendida numa maca metálica estava a que procurávamos. tinha a cabeça coberta de ligaduras a cara indecifrável inchada e roxa mas bastou_me ver_lhe os pés para saber que não era. só então me lembrei de perguntar a mim mesmo: que teria feito se tivesse sido ela?"



pág.89







"_ diga_me senhor: não é o que escreve as cartas de amor no jornal?
nunca podia ter imaginado que uma garota adormecida pudesse causar em alguém semelhantes estragos. fugi da fábrica sem me despedir nem pensar sequer se alguma daquelas virgens de purgatório era afinal a que eu procurava. quando saí dali o único sentimento que me restava na vida era a vontade de chorar."



pág. 90






















há que saber ficar para se partir a seguir. só depois. não é assim que se desiste sem mais nem menos do nada porque se calhar queres ir. há que saber preparar o caminho para se deixar. então não será que talvez já não te importas com nada e o caminho que deitas atrás até ao fechar das portas e do partir pedra sem atirar é o mesmo que me traçaste. por ventura te vais sem te ralares quem fica aqui parada. desvias_te assim do que começaste a criar sem querer semear nenhum lar. nem há casas. nem dores de partos. vidas adormecidas. só sonâmbulares. feridas a chagar. segredos sem contar.e sais_me assim sem avisar? houve entrada?


se me morres não faço nada
sento_me a esperar.

há que saber dar para depois saber tirar. haja lágrimas mas não me morras já. ainda não. não. amanhã. só. de manhã. porque se faz tarde para eu aí chegar.









notas à parte esqueci_me de te dizer o tal de infinitamente
que fique por ali só entre mim e mim






















excertos do livro memória das minhas putas tristes
de gabriel garcía márquez

fotografias de kalua krynska

7 comentários:

Karlinne disse...

sempre bom vir aqui, é tudo tão belo...

:)

Real GirL disse...

sento-me a esperar...
por mais excertos.

bonito

bjs

isabel mendes ferreira disse...

o que eu GOSTO deste blog....



_________________.

diana disse...

"eu sou a que não procuras."

Há algo nesta frase que descreve perfeitamente o ser humano. Não sei, mas ficou-me no ouvido e marcou-me ao longo dos excertos.


Como sempre, escolhas excelentes.

Baraújo disse...

gabriel garcia marquez...
kalua krynska (fizeste-me ser fã)
e tu... quem mais!!!!

tudo numa uniao ... que se dilui ... e se mistura ... enquanto se lê e se conjuga num reler... e sentir...

mais palavras... nem amanha ou depois de amanha numa manha ... adia o quanto puderes. porque ando ocupado nesses dias... (apeteceu-me expandir...)

beijo [E] terno

Graça Pires disse...

É sempre bom passar por aqui. Desta vez leio Gabriel García Márquez. Obrigada. Um beijo.

ivone disse...

"Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não ? "