11.12.08

_ estás a dormir?
_ não. só de olhos fechados. deixa_me estar.




é nesta hora que gosto mais de estar comigo. e quando assim se está nada como me programar para os tempos que se me avizinham. dias difíceis que me correm. e deixá_los correr assim. ao contrário de muitos vou ficar cinco dias espojada no meio do chão da sala resgardada entre quatro paredes um tecto e duas almas. assim ali estendida sem fazer nada. de braços fechados e pernas cruzadas. nada como inventar estes dias inúteis. quase uma semana onde não me aconteça nada. nem nascer nem morrer nem ressuscitar nem beber nem comer nem falar. só fumar claro. de vinte e um a vinte e cinco não vou fazer nada. absolutamente nada de nada. vou esfregar_me em tédio entregar_me à inércia à passividade. vou despojar_me dos diabos. não há razão para tal. apenas um enorme enormíssimo cansaço. um fechar de olhos manter_me calada e por fim desolar_me.









quem entrar sirva_se. está à vontade.





fotografia de irma atanassova

12 comentários:

Nina disse...

bom descanço!

Liliana disse...

"O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade, infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo,íssimo,
Cansaço..."
(fernando pessoa)




acredito em ti



beijo*

Liliana disse...

escrevi fernando pessoa, mas o poema é mais propriamente do heterónimo álvaro de campos, como tu sabes... o seu a seu dono...
:)

Anónimo disse...

Fala calada, fala com as mãos, deixa sair a arte que re corre nas veias e.....descansa, descansa de ti e...dos outros.

Um bj,

Segue um poema do poeta que tanto adoras.

Poesiadaalma



Insónia

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

O Profeta disse...

Sou coração que segue em silêncio
Nos fios do sublime pensamento
Pela ressurreição de um sorriso
Renasço nas asas do tempo

Esta Terra é degredo dos sonhos
É espelho que distorce o sentimento
É castigo no julgamento do fracasso
É fogo que se cala a todo o momento


Mágico fim de semana



Doce beijo

ivone disse...

nina
"intervalo doloroso
tudo me cansa.mesmo o que me não cansa."


liliana
"a ideia de viajar nauseia_me
já vi tudo que nunca tinha visto
já vi tudo que ainda não vi."
e depois é este enormíssimo cansaço. "só não há tédio nas paisagens que não existem nos livros que nunca lerei. a vida para mim é uma sonolência que não chega ao cérebro. esse conservo eu livre para que nele possa ser triste." e depois há este enormíssimo cansaço íssimo íssimo cansaço.


poesiadaalma
"durmo e desdurmo.
do outro lado de mim lá para trás de onde jazo o silêncio da casa toca no infinito. oiço cair o tempo gota a gota e nenhuma gota que cai se ouve cair. oprime_me físicamente o coração físico a memória reduzida a nada de tudo quanto foi ou fui.sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. a pele da fronha tem
com a minha pele um contacto de de gente na sombra. a própria orelha sobre a qual me encosto grava_se_me matematicamente contra o cérebro.pestanejo de cansaço e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo inaudível na brancura sensível da almofada erguida. respiro suspirando e a minha respiração acontece __ não é minha. sofro sem sentir nem pensar. o relógio da casa lugar certo lá ao fundo das coisas soa a meia hora seca e nula. tudo é tanto tudo é tão fundo tudo é tão negro e tão frio!
passo tempos passo silêncios mundos sem forma passam por mim.

posso dormir porque é manhã em mim. posso deixar_me à vida posso dormir posso ignorar_me..."
do livro do desassossego que comecei a reler um destes dias.

este texto se tivesse um nome seria insónia. como adivinhaste?


o profeta
é.
"o peso de sentir! o peso de ter que sentir!"

observatory disse...

sirva-se?

naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

nunca nunca

ou 2 ou ninguem :)

nao.

ivone disse...

observatory
sempre tive problemas com os pares
porque será?

M. disse...

:)
intervalei-me assim há tanto tempo!
Porém
preocupava-me que me passasse sempre algo ao lado e não saboreasse a tempo

Tens um espaço belíssimo e estou encantada.

Obrigada por teres aberto o caminho até aqui pelo meu Citadel.

Um beijo

Baraújo disse...

bem... fiquei caladito na pouca insignificancia... perdido entre as palavras de tao grandes... obrigado... por este magnifico momento que senti.. enquanto li e reli.. e re-reli... -li... parabens mais uma vez e vez que volto e volto para te ler..

e sirvo-me sim... destas palavras que me agitam. talvez um pouco de café tambem!

beijo [E] terno

ivone disse...

m.
agora é esta a minha hora de me intervalar.de vez em quando acontece_me.
e eu saboreio o tempo mesmo quando algo me passa ao lado. é esse o tempo meu. não preciso de fazer parte de. também há tempo para.

bem vinda à minha casa



baraújo
calado ou não que importa? estiveste cá e serviste_te de mim. bem haja

ps: também és cafeínodependente?

Baraújo disse...

nao sei se sou... mas numa boa companhia assim me torno! cafeíno-saboreador-dependente