8.12.08

tão bem
se beija de boca fechada


_ acabou_se a luz
_ acabaram_se as cores
_ acabou_se o nada
_ começa a beijar_me





























não tem para seu uso um único espelho. enrola o turbante ao ar livre no seu jardim de olhos postos no musgo das árvores. conhece_lhe a respiração quando encosta a cara ao seu corpo à clavícula onde o osso lhe aclara a pele. porém se ela lhe perguntar de que cor são os seus olhos e apesar da adoração que lhe tem não será pensa ela capaz de responder. limitar_se_á a rir e a tentar adivinhar mas se ela de olhos negros lhe disser fechando os olhos que os tem verdes ele acreditará. consegue fitar atentamente os olhos de uma pessoa sem fixar de que cor são do mesmo modo que a comida quando lhe chega à garganta ou ao estômago é mais simples textura do que sabor ou objecto determinado.


quando alguém fala ele observa_lhe a boca e não os olhos com as suas cores a seu ver sempre mutáveis consoante a luz de uma sala ou o momento do dia. as bocas revelam a insegurança ou a presunção ou qualquer outro ponto no espectro do carácter. para ele são a feição mais completa de um rosto. ele nunca sabe ao certo o que uns olhos revelam. mas consegue descortinar nas bocas uma nuvem de indiferença uma sugestão de ternura.




michael ondaatje o paciente inglês pág. 155




































é de noite que me fica quase sempre este gosto amargo na boca. a questão de me conseguires provocar sem nada fazeres mói_me o juízo e insulta_me os sentidos. estendo_me de braços abertos querendo que me conheças de corpo e alma inteira e cara lavada e mãos limpas para te receber. sempre a mesma de abraços vazios. acento os pés sete palmos abaixo da terra. afundo_me em erva. abro a cara à claridade do desejo mais sujo que posso ter e que me alivia a língua de incertezas. certeza uma. a de assim ser de braços vazios e boca fechada e cara tapada. quisesses tu colar_me as mãos nas plantas dos pés para me segurar. seria medonha a força do subir. como que em vertigem iria_se cair ao topo do céu esse que me ampara aqui entre ti e a vontade de ir. afundar_te comigo. é de noite que me fica assim este gosto amargo na boca. quando me atiro contigo e me afundo mais. corro_te no corpo todo sem nunca te tocar. não preciso. conheço_o de cor. quisesses tu saber o que me vai no tacto. essa cor de mel que me transpira nos dedos. desce comigo sete palmos abaixo e afunda_te assim no fim do mundo. onde a boca se escalda a língua se arde e a garganta se queima. um doce inferno. agarram_se as cinzas e cobrem_se as caras. os braços esses continuam vazios. nesta partida não se pode tocar. afastam_se os corpos a olhar falso a pedido da jogada. larga_me. maldito o diabo. tão bem se beija de boca fechada.








_ acabou_se a luz
_ acabaram_se as cores
_ acabou_se o nada
_ acaba_se o fim assim sem beijar










fotografias de petr drozdov

4.12.08

não. hoje não me digas porque só me ocorre responder_te tristeza

_ diz...












diz...







_ digo?
_ não digas
_ mas posso dizer?
_ não. hoje não me digas porque só me ocorre responder_te tristeza
_ diz..

















"pergunto_lhe se é costume estar_te triste como nós estamos. diz que há_de passar com a noite assim que ela chegar. digo_lhe que não é só por ter sido durante o dia que estou numa tristeza que já esperava e que só vem de mim. que sempre fui triste. que vejo essa tristeza também nas fotografias em que sou muito pequena. que hoje esta tristeza reconhecendo_a embora como a que sempre tive poderia quase dar_lhe o meu nome de tal modo se me assemelha. hoje digo_lhe que é um bem_estar esta tristeza. falo sem esperar resposta. digo_lhe que a minha mãe grita aquilo em que crê como os enviados de deus. grita que não se deve esperar nada nunca nem de pessoa alguma nem de estado nenhum nem de deus algum. eu digo que não faço da desgraça em que me encontro uma questão pessoal."





marguerite duras in o amante páginas 66 e 67



































sou quase perfeita por isso o de não gostar que me obriguem o não gostar que me digam o que devo dizer o que devo fazer. se não sei tocar piano nem cantar operetas que fazer? escrevo. se sei escrever? não. não sei. que ninguém me diga o que devo ou não escrever. que ninguém me diga quando ou não o fazer. que ninguém me omita o vómito de o ler.que ninguém me minta se o sente feio. cru. sujo. se o sei fazer? se sei. tudo o que me mói o juízo e se me atravessa na tripa estampo_o na cara daquele que não tem cara para mo dizer. as palavras soam_me bem e sabem_me melhor ainda por cada vez que as despejo na tinta. sou quase perfeita por isso pelo diz que não disse ou não era suposto ser dito porque muita coisa se diz sem se dizer e sem se querer dizer e dizer_se assim é como se desdizer diga_se o que se disser fica tudo por dizer e o diz que diz e não se diz talvez se diga de uma só vez. sou quase perfeita por isso mas não o posso dizer. nada mais me ocorre dizer a não ser dizer_te tristeza.

















_ digo?
_ não digas...
_ mas posso ou não dizer?
_ não. hoje não me digas porque só me ocorre responder_te tristeza.
_ diz...













fotografias de josi povic
e grzegorz sowa

23.11.08

xeque mate

_ estupor!
_ e porque dizes isso se não o sentes?
_ porque não posso continuar calada.










"nunca bom dia boa noite bom ano. nunca obrigado. nunca falar. nunca necessidade de falar. tudo fica mudo longe. todos os dias tentamos matar_nos matar. não só não nos falamos como não nos olhamos. a partir do momento em que somos vistos não podemos olhar. olhar é ter um movimento de curiosidade para e por é descer. nenhuma pessoa olhada vale o olhar sobre ela. é sempre desonroso. a palavra conversa é banida. creio que é ela que melhor aqui reflecte a vergonha e o orgulho. qualquer comunidade seja ela familiar ou outra é_nos odiosa degradante. estamos juntos numa vergonha de princípio que é ter de viver a vida."




marguerite duras in o amante pág. 83































_ estupor!
_ e porque dizes isso se não o sentes?
_ porque não posso continuar calada.














não tenho vergonha de princípio passar por mal educada. pretendo só insultar_te. desafiar_te a uma conversa em frente a um suposto tabuleiro qualquer na minha bancada da sala. alojemo_nos desconfortavelmente nas cadeiras que nos servem de suporte a afrontas comuns de mentiras e verdades. quero jogar à verdade ou consequências. lanças as peças ao estilo de desajeitada és e assim irás continuar a manifestar_te. talvez desta me sirva de sustento todas as estratégias que contigo aprendi. deixei_me de evasivas fugas e defesas. o meu jogo agora é ataque. olhas_me desconfiado como quem não pensa mas afinal que mal te fiz para merecer tamanha recarga. não se trata de vingança meu caro. caros são os sinais que me ficaram. marcas de desdém má ventura sinónimos de mal amada. por azar é desta que as pretas amargam. tens um nó na garganta tanta secura na língua boca fechada. as brancas minimizam_te o raciocínio de saber hoje este jogar. brutal. fico feliz. há a cada par e passo um ódio em cada jogada. o de não se saber sequer jogar porque não há regras neste nosso tabuleiro. salve_se. olhe salve_se meu caro adversário. a raínha levantou_se e xeque. xeque mate!











estupor. é o que me apetece dizer_te. não mereces ser ouvido. não mereces ser olhado. não te permito que me leias. estás proibído de entrar em minha casa.










fotografias de jay morrison

17.11.08

cem notas à parte e muitas em rodapé

cem notas à parte e muitas em rodapé





preciso bater a porta fechar a janela bater o pé preciso de um pouco de paz preciso de não me arrepender de esquecer de algum sentimento preciso de um pouco de paz preciso não ouvir falar não escutar não dizer e de não ler preciso de um pouco de paz preciso não atender não deixar dialogar de não escrever preciso de um pouco de paz preciso não querer não tocar não sentir de não temer preciso de um pouco de paz preciso não fotografar não pintar preciso de um pouco de paz preciso de não estar aqui de me ausentar de me presentear com um pouco de paz preciso dos meus infernos de não me limpar preciso de me sujar com um pouco de paz preciso continuar viva para não morrer já preciso de alertar de vomitar de insultar e de voltar a ser má menina preciso que me deixem em paz






fotografia de sabine l.

3.11.08

não compreendo e não pretendo continuar

fim











"não cobices a mulher do teu próximo nem desejes para ti a casa do teu próximo nem o campo nem o escravo nem a escrava nem o boi nem o jumento nem coisa alguma que pertença ao teu próximo"



décimo mandamento êxodo 20, 17


























não pretendo sem sombra de dúvida continuar a publicar katia chausheva berenika dimitri ou outros tantos que tais. fazem parte do meu portfólio fotográfico de memórias que teimo em guardar nas pastas.



não pretendo continuar de certeza a escrever sobre o que me ocupa os sentidos e me dá voltas à alma. esta indisgestão fez_me vomitar. que me adianta dizer por aqui de minhas injustiças se justa me desejo e tenho de me calar? que tormentas me vão desgastando neste lugar tão por si já farto que me faz cumprir vida num caderno que se me escorre sem verdades?



não pretendo continuar ligada ao que me move sem sentido agora que tanta falta me faz. pretendo continuar a pecar. cada vez mais o desejo. sem desafios a inquisidores de almas. queimam_se_me as páginas nas fogueiras e sou eu a primeira a soprar para atear. "o nome da rosa". livros. e livros. veneno. e veneno. venenosos. venenosas. sacrilégio este o de dizer um nada. mulheres nuas meus senhores? pois está claro. falsas morais. ateiam_se os sentidos que logo de seguida se apagam em água benta bentida água.





por ventura se encontrou palavra de ofensa inveja ou maldita?






















hoje fiquei a pensar se vale a pena continuar
sem vontade de apagar tudo o que aqui tenho tive vontade de não voltar








nota de rodapé: não é fim mas quase. não tenho vontade de continuar


fotografias de ville kansanen