tão bem
se beija de boca fechada

_ acabou_se a luz
_ acabaram_se as cores
_ acabou_se o nada
_ começa a beijar_me
_ começa a beijar_me

não tem para seu uso um único espelho. enrola o turbante ao ar livre no seu jardim de olhos postos no musgo das árvores. conhece_lhe a respiração quando encosta a cara ao seu corpo à clavícula onde o osso lhe aclara a pele. porém se ela lhe perguntar de que cor são os seus olhos e apesar da adoração que lhe tem não será pensa ela capaz de responder. limitar_se_á a rir e a tentar adivinhar mas se ela de olhos negros lhe disser fechando os olhos que os tem verdes ele acreditará. consegue fitar atentamente os olhos de uma pessoa sem fixar de que cor são do mesmo modo que a comida quando lhe chega à garganta ou ao estômago é mais simples textura do que sabor ou objecto determinado.
quando alguém fala ele observa_lhe a boca e não os olhos com as suas cores a seu ver sempre mutáveis consoante a luz de uma sala ou o momento do dia. as bocas revelam a insegurança ou a presunção ou qualquer outro ponto no espectro do carácter. para ele são a feição mais completa de um rosto. ele nunca sabe ao certo o que uns olhos revelam. mas consegue descortinar nas bocas uma nuvem de indiferença uma sugestão de ternura.
michael ondaatje o paciente inglês pág. 155


é de noite que me fica quase sempre este gosto amargo na boca. a questão de me conseguires provocar sem nada fazeres mói_me o juízo e insulta_me os sentidos. estendo_me de braços abertos querendo que me conheças de corpo e alma inteira e cara lavada e mãos limpas para te receber. sempre a mesma de abraços vazios. acento os pés sete palmos abaixo da terra. afundo_me em erva. abro a cara à claridade do desejo mais sujo que posso ter e que me alivia a língua de incertezas. certeza uma. a de assim ser de braços vazios e boca fechada e cara tapada. quisesses tu colar_me as mãos nas plantas dos pés para me segurar. seria medonha a força do subir. como que em vertigem iria_se cair ao topo do céu esse que me ampara aqui entre ti e a vontade de ir. afundar_te comigo. é de noite que me fica assim este gosto amargo na boca. quando me atiro contigo e me afundo mais. corro_te no corpo todo sem nunca te tocar. não preciso. conheço_o de cor. quisesses tu saber o que me vai no tacto. essa cor de mel que me transpira nos dedos. desce comigo sete palmos abaixo e afunda_te assim no fim do mundo. onde a boca se escalda a língua se arde e a garganta se queima. um doce inferno. agarram_se as cinzas e cobrem_se as caras. os braços esses continuam vazios. nesta partida não se pode tocar. afastam_se os corpos a olhar falso a pedido da jogada. larga_me. maldito o diabo. tão bem se beija de boca fechada.
_ acabou_se a luz
_ acabaram_se as cores
_ acabou_se o nada
_ acaba_se o fim assim sem beijar
fotografias de petr drozdov












