18.8.07

um caso de amor...

o post de hoje dedico-o ao pedro à lila e ao repórter estes últimos dois amigos que tiveram saudades minhas enquanto me ausentei de férias
desculpem-me se vos vou decepcionar porque não tenho fotos das férias nem poemas nem foto-poemas mas apenas um texto escrito a 16 de agosto. só palavras. letras minhas que quero partilhar com vocês
pensei duas vezes se havia de as postar aqui porque são tão íntimas tão minhas tão tudo o que me foi na alma nestes últimos dias que não sabia se faria bem em as tornar públicas. mas vocês merecem-nas!
aqui ficam:
este verão tive um caso de amor...
dizem que os amores de verão duram pouco, são efémeros, nascem rápidamente e pouco depois morrem e ficam enterrados na areia, fugazmente envoltos em mar de tão salgados que são.
o meu não foi assim. pelo contrário, irá ficar comigo até ao dia em que eu morrer. o meu caso foi doce...adocicado diria. como uma marguerita que bebi com sal à volta do rebordo do copo e de gelo picado que se derretia a cada beijo meu.
fez talvez dez anos que ele saiu de casa. desde aí tenho andado sempre sózinha incluíndo alguns verões claro. saímos juntos para um lugar onde o mar beija o céu onde as cegonhas cantam ao final da tarde e acasalam indiferentes aos olhares indiscretos dos turistas onde os melros roubam os sonhos pela madrugada onde o sol nos beija a pele pelo entardecer onde o sal da água nos acaricia sempre que lhe tocamos onde as andorinhas do mar dançam ao sabor do crepúsculo alheias ás minhas constantes e persistentes perseguições de olhares.
é o único lugar onde me enrolaria na areia...
aqui na com_____porta!
não digo que seja bonito, sedutor daquele tipo de homem que faz com que uma mulher pare na rua ou volte a cabeça para olhar novamente.para mim é bonito. alto, talvez um metro e oitenta, magro, sem o ser exageradamente não muito ataente de corpo porque tem um andar desajeitado, moreno, um corte de cabelo que não é corte, não muito curto nem muito comprido, ondulado como que a lembrar as ondas largas do mar, negro de um preto que abre um pouco com o sol, sobrancelhas fartas sem o serem em excesso, olhos castanhos de um castanho claro adocicado nariz pequeno sem ser arrebitado, boca doce com um sorriso malandro, dentes bonitos muito brancos um pouco desalinhados o que lhe dá uma certa graça, pescoço altivo e mãos de piano! as mãos são lindas. já lhe disse uma vez: "tu tens mãos de pianista! dedos alongados finos bonitos de tanta elegância.gosto tanto das tuas mãos!"
faz talvez dez anos que ele saiu de casa. tenho ainda o sabor amargo desse dia de quando me voltou as costas sem se despedir sem dizer adeus até amanhã quanto mais um beijo de até breve.
fiz questão de o levar a conhecer o museu do arroz. para quem não conhece o museu é um restaurante muito in onde quem nunca entrou não imagina o espaço sublime que é. este lugar tem qualquer coisa de mágico de surrealista...já foi em tempos um espaço onde se guardava e tratava o arroz dos campos ali ao lado. existe um espaço exterior quase a lembrar um alpendre onde ao final da tarde me posso deliciar com uma marguerita e saborear o verde dos arrozais semi deitada numa chaise longue de ferro forjado em preto com alguns almofadões onde me enrosco a ouvir música.
já lá dentro saboreámos juntos os candelabros monstruosos suspensos do tecto, lindíssimos e magníficamente pendurados no céu da sala principal. a vela acesa na mesa serviu de desculpa para pequenas brincadeiras à semelhança do que se passou na véspera no bar enquanto nos preparávamos para sair e coloquei o copo da marguerita dentro da mala.
quando saímos do museu envolveu a minha cintura com o braço dele e beijou-me na face "obrigado pelo jantar" disse.
limitei-me ao silêncio dizendo-lhe que tinha feito questão de...
reli o "à beira do rio piedra" do paulo coelho. tinha-o lido faz exactamente dez anos antes. exactamente os mesmos dez anos de quando ele me deixou.
largou-me sem dó sem voltar a olhar para trás como quem fugia de mim. talvez porque se sentia saturado ou apenas farto ou cansado como quem diz "deixei de te amar".
ainda hoje transporto comigo o imenso sofrimento desse instante uma dor tamanha que se alastrou pelo meu corpo todo como um arrepio gelado que me subiu dos pés à cabeça e me fez permanecer quieta quase imobilizada em silêncio colada ao chão da sala vendo-o partir.
após dez anos voltei a conquistar aqueles beijos os mesmos risos os gestos atrapalhados as palavras descomprometidas aqueles abraços como quem transporta consigo um mundo sem medos com tamanha força que o peito se torna pequeno demais para desejar maior amor.
se ser feliz é isto então eu sou.
é uma história de amor "à beira do rio piedra" como o é a minha e "é desnecessário conversar sobre o amor porque o amor tem a sua própria voz fala por si só".
eu reli "sentei e chorei" como quem renasce e estende os braços como quem diz "fica" e ele ainda aqui está.
chama-se pedro vai fazer dezoito anos no próximo dia 3 de setembro pelas treze horas e vinte minutos e é meu filho.

10 comentários:

Repórter disse...

As saudades que senti desta menina quase irrequieta que um dia resolveu ir de férias, deixando para trás uma sensação de vazio.
Ela está de volta. E dedica-me esta história.
A mim, à Lila e ao Pedro.

Pela minha parte, fico grato.

Tive um pressentimento de que algo ia acontecer nesta noite de sábado.

É raro eu andar pela net a estas horas.
Mas hoje, tocou a campainha e resolvi espreitar.

Que surpresa agradável.

Obrigado, Ivoninha.

Um beijo.

lila disse...

Lindo,adorei!!! eu sabia que estas férias iam ser positivas,adorei este post,um beijo grande amiga

Victor disse...

Querida Ivone

Ainda há pouco te confessava que estava inquieto, "mal de cabeça", quiçá de humor instável. Carecia de algo que como um choque eléctrico me trouxesse ao meu estado de habitual optimismo.
Temos dias assim... mas é sempre importante avançar, ultrapassar os escolhos que diariamente se levantam ao nosso caminhar.
De seguida vim ler esta tua postagem... e fiquei encantado!

Um excelente conto de amor, de vida vivida, de amor sentido. Foi-me impossível reter uma lágrima furtiva. Que história maravilhosa contada com a simplicidade das coisas belas.
E o caminho do futuro tão bem desenhado, com tanto optimismo, com tanta verdade. Maravilhoso!!!!

Um beijinho grande.

Um Momento disse...

Ivone olá:))
Não ficarás sem o Teevinho da Sorte não senhor
Olha eu aqui a trazer-to com toda a minha devoção e carinho
Para que te dê toda a sorte de que necessites , toda a sorte que houver:))
Um beijo e sim , voltarei , pois apenas espreitei
Um beijo de noite sereninha , agora com o teu Trevinho da Sorte

(*)

ivone disse...

srº repórter
sexto sentido nesta madrugada de sábado...
até blues


lila
eu sabia que ias gostar...
bj

amigo victor
é sempre gratificante ler as tuas palavras...
bj

pentelho real disse...

Só posso dizer: que maravilha escrever assim. Sim, é lindo!

des-encantos disse...

Pois é : já sabia que escrevias bem....
Um óptimo 'conto' de amor'....
qd tinha 17 anos descobri-conheci esta menina do alem-Tejo que escreveu assim:É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo Pedro Sem,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida... (seu nome FEspanca)
BJS.

ivone disse...

real

não sei que me deu que não consigo parar de escrever...
se fores ver os arquivos do blog notas uma grande diferença entre o que postei antes e depois das férias
bem vinda ao meu lugar de sentimentos!

bj

ivone disse...

olá desencantos

bem vindo ao meu lugar de sentimentos!
também eu descobri essa alentejana muito cedo antes de ti. faz parte das minhas memórias sempre. deixo-te aqui e ainda a propósito de um caso de amor a parte final de um soneto dela.

"o amor dum homem? terra tão pisada
gota de chuva ao vento baloiçada...
um homem? quando eu sonho o amor de um deus!..."
espero-te mais vezes por aqui...faço questão!

um grande abraço

Amaral disse...

Não é um simples caso de amor!
É o testemunho de uma experiência, que não é tua nem de ninguém em especial, porque a partilhaste com o amor que te enche o peito...
Quando a alma fala, só o sentimento se entende!
"Onde o mar beija o céu" qualquer olhar ou qualquer gesto encurtam o espaço que conduz à unidade.
Qualquer experiência semelhante a esta deveria ser partilhada! O amor fala de amor e compreende o amor em todas as pessoas do mundo!
O carinho e a ternura não são os apêndices dum envolvimento. Unidos ao amor, apaixonam esse amor de bem estar e serenidade!