22.6.08

há feridas no cheiro que não se saram

há feridas no cheiro


































Precipitaram_se para o anjo caíram_lhe em cima prostaram_no por terra.
Cada um queria tocar, cada um pretendia a sua parte, possuir uma pequena pluma, uma pequena asa, uma centelha do seu fogo radioso. Arrancaram-lhe as roupas, os cabelos, arrancaram-lhe a pele, cravaram-lhe as unhas e os dentes na carne.


Quando, após terminarem o seu repasto, os canibais se reencon­traram à volta da fogueira, ninguém pronunciou palavra. Um ou outro soltava um arroto, cuspia um bocadinho de osso, produzia um estalido discreto com a língua, empurrava com o pé para as chamas um minús­culo pedaço de tecido que restava da casaca azul. Estavam todos pouco à vontade e não se atreviam a encarar-se. Aqueles homens e mulheres tinham já na consciência um assassínio ou qualquer crime ignóbil. Mas comer um homem? Nunca na vida se teriam julgado capazes de uma coisa tão horrível. E admiravam-se, mesmo assim, por terem cometido aquele acto com tanta felicidade e não sentirem, à excepção da falta de à-vontade, o mínimo peso na consciência. Pelo contrário! Tinham o estômago um pouco pesado, mas o coração alegre. Nas suas almas tenebrosas surgiu um repentino palpitar de alegria. E nos rostos pairava-lhes um virginal e suave brilho de felicidade. Era indubitavelmente esse o motivo por que receavam erguer os olhos e fitarem-se.
Contudo, quando se arriscaram a fazê-lo, primeiro de fugida e depois abertamente, não conseguiram reter um sorriso. Sentiam-se extraordinariamente orgulhosos. Era a primeira vez que faziam qualquer coisa por amor.





o perfume de patrick süskind
















aguça_se o sabor do cheiro. lava_se a língua da secura dos monólogos mantidos a par. a improvisação do texto chega a doer. há feridas na boca que nunca se curam.


no acto da chegada jogo à defesa. sem vontade de lançar no tabuleiro a peça única mantem_se de pé. parada e quieta qual estátua de pedra fria. sem cheiro. dá dó de ver.


faz lembrar um casulo amassado. calca_se a casca e atrofia_se a pele. machuca_se o odor. transforma_se o cheiro num fedor mastigável após a boca acender o último cigarro. e fica_se sem saber o que dizer. sem fazer. fica_se.


nesta dificuldade de continuar em jogo não sei de quê atiça_se a vontade de reinventar novos sentidos. aguça_se então o sabor do cheiro.


o perfume que ocupa cada poro daquela pele. a que ocupa o branco da cama com o lençol que se afasta com os pés e o travesseiro que se atira fora pelo ar.


é neste tabuleiro que me arrasto vagarosamente desligando a luz da rua que me atravessa os estores mal fechados enquanto a corrente de ar se me atravessa por entre os braços. o único sinal de vida é a respiração quase inaudível que parte em dois a massa atabalhoada de corpos adormecidos pelo quarto.


e a hora avançada da madrugada mantem_se fresca como a memória de tantas noites sem ser assim. com o precipitar aposto em não jogar. é um jogo sem sentido que todo o sentido faz.


mais uma vez mas desta acompanhada o corpo continua_me frio e esgotado de cansaço. poderia teimar. quebrar o ar pesado com um bafo sufocado. despejar as frases há tanto encravadas. retocar os poros. respirar sem inalar. mastigar o perfume ainda não gasto. lavar a língua nos suores tão familiares.





mas há feridas no cheiro que não se saram.







fotos de katia chausheva

11 comentários:

~pi disse...

...


cozem se no forno:

cheiro

a fonte d´alva

tão te leve d´ água

tão breve

[

te

amas

sa



~

Baraújo disse...

vim logo a correr ... e delicio-me no aroma das tuas palavras...
sabes como gosto do livro a que pertence o teu pedacinho de perfume.... e deliciei-me no teu próprio registo. no teu próprio sentido das coisas...

"há feridas no cheiro que não se saram"

e há feridas saradas que continuam a doer através do cheiro do perfume ausente sempre presente!

beijo terno
e... obrigado!

S. disse...

mas também há memórias no cheiro que não se perdem :)

Vertigo disse...

Começas os teus textos e apoteose!!

"há feridas no cheiro que não se saram"

"abre-se a boca para receber o céu da outra"

"é preciso o amor de repente.."

(suspiro)

um beijo

Karlinne disse...

as fotografias da katia chausheva ficaram incríveis com a postagem.

muito bonito de verdade.

(adoro a maneira espaçosa do seu Blog)

:)

Nogs disse...

Há feridas que se cravam na pele e se entranham no teu próprio odor.


O perfume...
Tão foprte. Um dos melhores livros que vi. (o filme também não está mal.)


Beijo

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ disse...

Adorei o livro!!!!!!!!!!!!


Como é importante o olfacto...

prende-se com emoções!

beijocas

O Profeta disse...

Hoje o Mar adormeceu na Aurora
O dia desponta em doce calmaria
Um barco cede ao embalo do vento
Uma gaivota na escarpa o ninho vigia

Hoje o Sol pintou de luz o verde
As hortênsias são nuvens na terra
Plantadas por um deus romântico
No sortilégio que esta ilha encerra


Bom domingo


Mágico beijo

ivone disse...

~pi
na água
quente a ferro e fogo
também

assim se ama

sse



baraújo
o post é teu
foi escrito para ti

ps: não te quis dizer obviamente
bj




s.
essas ñ se devem perder nunca
são memórias vivas



vertigo
há uma apoteose para tudo
só precisa descobrir qual



karlinne
preciso de espaço
muito
senão não consigo respirar




nogs
é diferente o filme do livro claro
uma adaptação deixa sempre qualquer coisa a desejar
apesar disso aconselho_te a veres



profeta
obrigada pelo poema
e bom domingo para ti também

Baraújo disse...

ivone. MUITO mas MUITO OBRIGADO!

Adorei este carinho! este teu gesto! simplesmente adorei!

sabes que adoro o teu blog e os teus posts pelos mais variados motivos.

enorme beijo ternamente perfumado!

PS.01 de facto nao tinha lido esta tua resposta... obrigado uma vez mais

PS.02 algures pelo meu reportório, faço alusão a um perfume, aliás o próprio nome do texto é de um perfume que uso! fica a curiosidade deixada em aberto para ser descoberta quando o tempo te deixar [uma ajuda, nos primeiros meses de 2007]

ivone disse...

baraújo


Quarta-feira, Março 28, 2007

e pinto o teu corpo em silêncio
com as mãos e com os dedos
que revelam a sombra dos teus suspiros
que fazem aumentar os meus desejos…
e o silêncio de um beijo
um tango entre as línguas…
e a tua mão que empurra a minha
a revelar o corpo que me deseja!
e no relevo da tua pele
desenho a fragrância do meu perfume

allure!



ps: obrigada pela dica
li poemas que não tinha lido ainda
neste senti o teu cheiro sim

bj