10.7.08

se calhar espero um dia que assim venhas devagar

.
mas a saber que vens




















cada tempo desfaz_se em sinais de fumo
que engulo a soluçar

















à memória de fernando pessoa

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem, serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes,
só de ver que a beleza não nasce dia a dia na terra.

E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exata
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.


E dá asas ao peso da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros
na chaminé do sangue.


Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta,
do inesperado abrigo.


Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.


Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente,
Serenidade, és minha.






serenidade és minha
de raul de carvalho






















espero que se calhar um dia venhas oxalá assim devagar no decompasso de uma entrega
singular que aguardo serenamente. sem hesitar espero_te vagarosamente como quem aguarda sem esperar. a presença dos dias que faltam avizinham_se uma eternidade. mas a saber que vens cada tempo desse desfaz_se em sinais de fumo que engulo a soluçar. será por ventura uma fantástica chegada essa em que me chegarás despojado de outras memórias outras gentes outros lugares. será branca a madrugada será branda a palavra será viva a dormida. lúcida amedontrada desenvergonhada.









será a nossa partida
se calhar espero um dia que assim venhas devagar











oxalá
fotos de michael g. magin

10 comentários:

Dois Rios disse...

Belíssimo Ivone!

serenidade...
tempo de espera...
fantástica chegada...

palavras que soam tão bem no amor.

Beijo,

Ludiro disse...

Muy belo...estou te devendo esta visita há um bom tempo, agora que pude, nossa que espaço bom de se visitar! Gostei da leitura que aqui tive!

Forte e poético abraço!

-- Poeta Ludiro

oldmirror disse...

Também a beleza na longa e tranquila espera. Também há sonho no desejo de apagar as memórias. Também há verdade na inevitabilidade da chegada de um e na partida dos dois. Há sinais de fumo engolidos sem soluçar.

diana disse...

Que espera mágica, tranquila!! Tudo envolto em sonho, o sonho de uma chegada. Tão lindo!

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ disse...

Óptimo post!!!!!!!!!!


beijinhos

Luís Galego disse...

à memória dos grandes poetas...também tu és uma nomada das palavras e das imagens...

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ disse...

Olha tenho novo link para o blog... embora seja quase igual
http://coisasquevoam.blogspot.com/

beijinhos

Moon_T disse...

lindo...


obrigado

Baraújo disse...

serenamente.. fiquei sem palavras...

e gostei do poema q escolheste do raul de carvalho.

beijo terno.

ps. o prometido nao esta esquecido

Andreia Ferreira disse...

como diria (cantaria) o camané: "tenho saudades do futuro". :) *